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domingo, 19 de abril de 2026

 


OS GRÃOS DO AGRONEGÓCIO SÃO PARA OS ANIMAIS

 

     Maior parte dos grãos vira ração, e não alimento humano

     Reduzir ou tirar as carnes do cardápio reduz enormemente a demanda por monoculturas e uso de terras. A mudança favorece sistemas agrícolas mais saudáveis e sustentáveis

     A pecuária ocupa 75% das terras aráveis do planeta. Empreendedores e cientistas pensam em formas de substituir carne, leite e ovos (Foto: Gonzalo Martinez/Thinkstock by Getty Images)

     A produção de carnes e outros produtos de origem animal requer extensas áreas e o uso maciço de recursos naturais escassos. A pecuária ocupa 75% das terras aráveis do planeta, principalmente para pastagem e produção de ração – embora seja responsável por apenas 12% das calorias consumidas globalmente. No Brasil, milhões de hectares de vegetação nativa, em ecossistemas como a Amazônia e o Cerrado, foram perdidos para a abertura de pastos e para o cultivo de grãos como a soja, usada predominantemente como ração para animais.

     Um relatório recente feito pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional mostrou que a pecuária é o setor da economia brasileira com os maiores custos em termos de perda de capital natural: para cada R$ 1 milhão de receita do setor, R$ 22 milhões são perdidos devido a perda de capital natural e outros danos ambientais. De forma semelhante, estima-se que as operações de abate e processamento de animais custam ao país, em danos ambientais, 371% a mais do que a receita que geram.

     + A multiplicação das demandas: por que a indústria da alimentação está se transformando.

     A possibilidade de reverter o impacto negativo de uma economia ainda centrada no uso de animais, e ao mesmo tempo atender à demanda de uma população crescente e mais afluente, representa um grande desafio. A boa notícia é que uma revolução na forma de consumir e produzir alimentos já está em curso.

     Por um lado, consumidores e governos se conscientizam dos problemas ambientais, éticos, de saúde e econômicos associados a criação de bilhões de animais anualmente, com empresas e investidores cada vez mais conscientes dos riscos da associação direta e indireta a práticas nocivas. Por outro, cientistas e empreendedores no mundo todo estão explorando formas inovadoras de desenvolver substitutos de carnes, leites e ovos. Segundo Eric Schmidt, presidente do Google até 2011, “uma revolução irá ocorrer, na qual as proteínas vegetais irão substituir a carne nas próximas décadas”. De fato, gigantes mundiais do setor já começam a mudar de rumo: recentemente a Tyson Foods, a Maple Leaf Foods e a Unilever fizeram investimentos milionários no mercado de proteínas vegetais e substitutas para carnes.

     + O futuro da comida está na verdade, não em rótulos obscuros, afirma a ativista Francine Lima

     Uma pesquisa recente da Universidade de Oxford mostra também que a redução no consumo de carnes seria também benéfica à saúde de todos e aos cofres públicos: no Brasil, ela poderia economizar mais de R$ 100 bilhões em gastos com saúde e perda de produtividade no trabalho até 2050, quase metade do investimento necessário para expandir os serviços de saneamento e tratamento de água para os 100 milhões de brasileiros que ainda não o possuem. A mudança para dietas vegetarianas e veganas representaria uma economia ainda maior, associada à redução no número de casos de diabetes e doenças cardiovasculares.

     O Brasil corre o risco de perder o bonde da história se demorar para investir nessa mudança – por um lado, estamos comprometendo nosso capital natural, exportando carne e ração barata sem embutir os altos custos ambientais praticados em solo brasileiro; por outro, teremos que importar tecnologia alimentar em um futuro bastante próximo.

     A certeza que temos é de que a mudança para uma alimentação "mais vegana" é essencial para enfrentar esses desafios sociais, éticos e ambientais. A pergunta que segue sem resposta, porém, é: de que lado o Brasil vai ficar?

 

NEGÓCIOS

 

https://www.google.com/search?q=os+gr%C3%A3os+do+agroneg%C3%B3cio+s%C3%A3o+mais+para+os+animais+do+que+para+gente&rlz=1C1VDKB_enBR1148BR1148&oq=&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUqCQgAECMYJxjqAjIJCAAQIxgnGOoCMgkIARAjGCcY6gIyCQgCECMYJxjqAjIJCAMQIxgnGOoCMgkIBBAjGCcY6gIyCQgFECMYJxjqAjIJCAYQIxgnGOoCMgkIBxAjGCcY6gLSAQoxMjk3OGowajE1qAIIsAIB8QWnj208lRrXDg&sourceid=chrome&ie=UTF-8

 

https://averdadenainternet.blogspot.com/search?q=Gr%C3%A3os

 

https://averdadenainternet.blogspot.com/search?q=Ra%C3%A7%C3%A3o

 

https://www.youtube.com/shorts/tEW1-LkaZ4I

 

 

Pensamento: O ser é, e não pode não ser e o não ser, não é e não pode ser de modo algum.

 

Parmênides

 

 


EXPORTAÇÃO DE AZEITE DE OLIVA

 

     Azeite brasileiro pode atingir 1 milhão de litros em 2026

Rio Grande do Sul se destaca como maior produtor no país

Kaique Cangirana, da CNN Brasil, São Paulo

26/03/26 às 14:36 | Atualizado 26/03/26 às 14:36

azeites de oliva

     A produção de azeite de oliva no Brasil deve atingir um milhão de litros em 2026, segundo a expectativa do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva). Para o Rio Grande do Sul, o maior produtor, espera-se 800 mil litros desse total, enquanto outras regiões produtoras do país concentram expectativas de produção em 200 mil litros.

     O resultado representa uma reviravolta do desempenho da safra no estado gaúcho e ocorre após dois anos de frustrações de safra desencadeadas por condições climáticas adversas. O volume produzido no país foi prejudicado devido à ciclos desordenados. Neste ciclo, segundo o instituto, o clima favoreceu o desenvolvimento das oliveiras, o que permitiu a recuperação da produção.

Flávio Obino Filho, presidente do Ibraoliva, afirma que o resultado está ligado às condições climáticas registradas ao longo do ciclo. “Tivemos um ano com clima que contribuiu para o desenvolvimento das oliveiras e isso impacta diretamente na produção”, explica.

     Segundo o presidente, o volume indica avanço da atividade no país. “É um crescimento que reforça a presença do azeite brasileiro no mercado e amplia o acesso do consumidor ao produto nacional”, destaca.

     A perspectiva surge às vésperas da 14ª Abertura Oficial da Colheita da Oliva, organizada pelo Ibraoliva. A programação inclui uma feira de negócios voltada à olivicultura e a comercialização direta de azeites da safra 2026 por produtores gaúchos.

 

CNN Brasil AGR

 

https://www.google.com/search?q=Exporta%C3%A7%C3%A3o+de+azeite+do+Brasil.&sca_esv=f6a8bcc9c9e8c0ec&rlz=1C1VDKB_enBR1148BR1148&sxsrf=ANbL-n5Qgv0yOvUtci6l2a-Hsi6m3QY9pg%3A1776598064030&ei=MLzkafLAAYee5OUP2rPHYQ&ved=0ahUKEwjymI_E5_mTAxUHD7kGHdrZMQwQ4dUDCBE&oq=Exporta%C3%A7%C3%A3o+de+azeite+do+Brasil.&gs_lp=Egxnd3Mtd2l6LXNlcnAiIUV4cG9ydGHDp8OjbyBkZSBhemVpdGUgZG8gQnJhc2lsLjIIEAAYgAQYogQyBRAAGO8FMggQABiABBiiBDIFEAAY7wVI8VxQpTRYwTxwAngAkAEAmAGeAaABrweqAQMwLje4AQzIAQD4AQGYAgigAvIGwgIKEAAYRxjWBBiwA5gDAIgGAZAGCJIHAzIuNqAHpRiyBwMwLja4B9sGwgcFMi03LjHIBzKACAE&sclient=gws-wiz-serp

 

https://www.google.com/search?q=Exporta%C3%A7%C3%A3o+de+mel+e+azeite+do+Brasil.&rlz=1C1VDKB_enBR1148BR1148&oq=Exporta%C3%A7%C3%A3o+de+mel+e+azeite+do+Brasil.&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQIRigATIHCAIQIRigATIHCAMQIRigATIHCAQQIRigAdIBCjQ0Nzg2ajBqMTWoAgiwAgHxBch2kske1RL_&sourceid=chrome&ie=UTF-8

 

 

Pensamento: Geralmente aqueles que sabem pouco falam muito e aqueles que sabem muito falam pouco.

 

Jean-Jacques Rousseau

 

sábado, 18 de abril de 2026



A IA E O CUSTO DE VIDA VS SALÁRIO MÍNIMO

 

     Qual o custo real de vida no Brasil com relação ao Salário Mínimo do trabalhador?

     **O salário mínimo no Brasil em 2026 é de R$ 1.621,00, mas esse valor está muito abaixo do necessário para cobrir o custo real de vida de uma família. Estudos apontam que o salário ideal para atender às necessidades básicas deveria ser mais de quatro vezes maior.** 

     Salário Mínimo vs. Custo de Vida

     Item Básico (Família de 4 pessoas)

|Custo Médio Mensal (2026) | Percentual do Salário Mínimo |

|Alimentação | R$ 1.200 – R$ 1.500          | 74% – 92%                   |

|Habitação(aluguel+contas)R$1.000–R$1.400 |62%-86%                   |

|Transporte              | R$ 400 – R$ 600           | 25% – 37%                   |

|Saúde e medicamentos| R$ 300 – R$ 500         | 18% – 31%                   |

|Educação e material escolar | R$ 250 – R$ 400 | 15% – 25%                   |

|Vestuário e outros gastos| R$ 200 – R$ 300| 12% – 18%                   |

     **Total médio necessário: R$ 3.500 – R$ 4.700**     

 

     **Salário mínimo cobre apenas ~35% a 45% desse valor.**

     Impacto na Vida do Trabalhador

     **Supermercado:** A inflação dos alimentos continua corroendo o poder de compra; o carrinho de compras está cada vez mais vazio mesmo com reajustes salariais. 

     **Habitação:** Em cidades como Recife e Jaboatão dos Guararapes, o aluguel de um apartamento simples já consome quase todo o salário mínimo. 

     **Endividamento:** Muitos trabalhadores recorrem ao crédito para cobrir despesas básicas, aumentando o risco de inadimplência. 

     **Desigualdade:** O salário mínimo não acompanha o custo real de vida, ampliando a distância entre renda e necessidades essenciais.

     Considerações Importantes

     O salário mínimo é calculado com base na **inflação do ano anterior e crescimento do PIB**, mas não reflete o custo real de sobrevivência. 

     O **Dieese** historicamente aponta que o salário mínimo necessário para atender às necessidades básicas deveria ser **cerca de 4 a 5 vezes maior** que o oficial. 

     Famílias dependentes exclusivamente do salário mínimo precisam complementar renda com trabalhos informais ou programas sociais.

     Reflexão

     O salário mínimo brasileiro cumpre função **legal e política**, mas não garante condições dignas de vida. Ele serve como referência para benefícios sociais e aposentadorias, mas está longe de ser suficiente para sustentar uma família. 

     Ernani, você gostaria que eu trouxesse uma análise específica para **Pernambuco**, mostrando como o custo de vida em Recife/Jaboatão se compara ao salário mínimo nacional? Isso pode dar uma visão mais prática da realidade local.

 

 

     Gostaria de saber de modo geral no Brasil e como está atualmente a inflação real do país?

     **Atualmente, a inflação oficial no Brasil está em torno de 4,1% nos últimos 12 meses (IPCA acumulado até março de 2026), acima da meta do Banco Central, e as projeções para o ano indicam que deve fechar perto de 4,7%. Isso significa que o custo de vida continua pressionado, especialmente em alimentação e habitação, mesmo com reajustes no salário mínimo.**  

     Inflação Atual no Brasil (Abril 2026)

     **IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo):**

     Março/2026: **0,88%**

     Acumulado em 12 meses (abr/2025 – mar/2026): **4,14%**

     Acumulado no ano (jan – mar/2026): **1,92%**  

     **Projeção do Boletim Focus (Banco Central):**

     IPCA esperado para 2026: **4,71%**

     PIB: **1,85%**

     Selic: **12,50%**

     Câmbio: **R$ 5,37**  

     Impacto no Custo de Vida

     **Alimentação:** continua sendo o maior vilão da inflação, com alta nos preços de arroz, feijão, carnes e hortaliças. 

     **Habitação:** aluguel e energia elétrica pressionam o orçamento das famílias, especialmente em capitais como Recife. 

     **Transporte:** reajustes em combustíveis e tarifas de ônibus afetam diretamente trabalhadores de baixa renda. 

     **Saúde e educação:** também apresentam aumentos acima da média, ampliando a dificuldade de quem depende do salário mínimo.

     Contexto Econômico

     O Brasil vive um cenário de **inflação acima da meta** (3% ± 1,5 p.p.), o que obriga o Banco Central a manter juros elevados. 

     O **crescimento econômico projetado é baixo (1,85%)**, o que limita a geração de empregos e renda. 

     A inflação corrente está **mais controlada que em anos anteriores**, mas ainda insuficiente para aliviar o custo de vida real. 

     Reflexão

     O salário mínimo de R$ 1.621,00 em 2026 não acompanha a inflação acumulada e está muito distante do valor necessário para cobrir despesas básicas. O **Dieese estima que o salário mínimo necessário deveria ser entre R$ 6.000 e R$ 7.000** para garantir condições dignas a uma família de quatro pessoas. 

     Ernani, você gostaria que eu detalhasse **quais setores estão puxando a inflação em 2026** (como alimentos, energia e serviços), para entender melhor onde o custo de vida está mais pesado?

 

 

     Sim, mas quero saber a taxa da inflação no Brasil.

     Atualmente, a **taxa oficial de inflação no Brasil** medida pelo **IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo)** está em torno de **4,1% nos últimos 12 meses até março de 2026**. 

     Detalhes principais

     **Março/2026:** inflação mensal de **0,88%**. 

     **Acumulado no ano (jan–mar/2026):** **1,92%**. 

     **Acumulado em 12 meses:** **4,14%**, acima da meta do Banco Central (3% ± 1,5 p.p.). 

     **Projeção para 2026:** IPCA deve fechar próximo de **4,7%**. 

     Setores que mais pressionam a inflação

     **Alimentação e bebidas:** continuam sendo os maiores responsáveis, com alta em arroz, feijão, carnes e hortaliças. 

     **Habitação:** energia elétrica e aluguel pesam bastante no orçamento. 

     **Transportes:** combustíveis e tarifas de ônibus também puxam os índices. 

     **Saúde e educação:** apresentam reajustes acima da média. 

     Contexto

     O Banco Central mantém a taxa **Selic em 12,50%** para tentar conter a inflação, mas isso encarece crédito e limita o crescimento econômico (PIB projetado em apenas **1,85%**). 

     Em resumo: a inflação está **relativamente controlada em comparação a anos anteriores**, mas ainda **acima da meta oficial**, e o impacto no custo de vida é sentido principalmente em alimentação e moradia. 

     Ernani, você gostaria que eu trouxesse uma **comparação histórica** mostrando como a inflação atual se posiciona em relação aos últimos 5 anos? Isso ajuda a entender se estamos em um ciclo de alta ou de queda.

 

 

     Sim.

     **Nos últimos 5 anos, a inflação no Brasil variou entre 4% e quase 6% ao ano, com picos em 2022 (5,78%) e uma relativa estabilidade entre 2023 e 2025 (em torno de 4,5%).   Em 2026, até março, o acumulado já está em 1,92%, projetando um fechamento próximo de 4,7%.** 

     Histórico da Inflação (IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo)

 

| Ano | Inflação acumulada (IPCA) | Contexto econômico |

| **2021** | 10,06% | Forte pressão de combustíveis e alimentos, pós-pandemia. |

| **2022** | 5,78% | Alta de energia elétrica e combustíveis; início de desaceleração. |

| **2023** | 4,62% | Inflação mais controlada, mas alimentos ainda pressionando. |

| **2024** | 4,83% | Estabilidade, mas serviços e habitação puxaram índices. |

| **2025** | 4,26% | Inflação relativamente baixa, mas custo de vida elevado. |

| **2026 (até mar)** | 1,92% (12 meses: 4,14%) | Projeção de 4,7% no ano, acima da meta do BC. |

     Fonte: IBGE e Dados de Mercado 

     Tendências e Pressões

     **Alimentação e bebidas:** continuam sendo os maiores vilões, com alta em arroz, feijão, carnes e hortaliças. 

     **Habitação:** energia elétrica e aluguel seguem pressionando famílias. 

     **Transportes:** reajustes em combustíveis e tarifas urbanas. 

     **Serviços:** educação e saúde apresentam aumentos acima da média. 

     Reflexão

     A inflação atual está **mais baixa que em 2021–2022**, mas ainda **acima da meta oficial (3% ± 1,5 p.p.)**. 

     O **Banco Central mantém a Selic em 12,50%** para conter preços, o que limita crédito e crescimento econômico. 

     Para o trabalhador que recebe **salário mínimo (R$ 1.621,00 em 2026)**, o custo de vida continua desproporcional: mesmo com inflação controlada, os preços básicos (aluguel, comida, transporte) consomem quase todo o rendimento. 

 

Copilot vs Ernani

 

     Comentário:

 

     O Salário Mínimo do Brasil não passa de um látego nas costas do trabalhador escravo. Salário Mínimo deste ano (2026) R$1.621,00 e do ano que vem R$1.71700 com um aumento de R$96,00 enquanto os políticos vivem como Marajás e o pobre do trabalhador vive como escravo.

 

Ernani Serra


https://averdadenainternet.blogspot.com/search?q=Sal%C3%A1rio+dos+Pol%C3%ADticos

 

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Pensamento: O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

 

Simone de Beauvoir


sexta-feira, 17 de abril de 2026



O AGRONEGÓCIO É RESPONSÁVEL PELA DESTRUIÇÃO DO PLANETA

 Sim, o “agro” é o vilão do colapso climático

     Se nada for feito, temperaturas no Brasil crescerão acima da média global. Secas e inundações serão mais frequentes. E virão crises sociais, urbanas e sanitárias, com milhões de “refugiados do clima”. Enquanto isso, o ruralismo continua com “salvo-conduto” para devastar

Terra e Antropoceno

Por Jean Marc von der Weid

Publicado 20/09/2024 às 16:49

     Enquanto a fumaça não irrita os olhos, a garganta e os pulmões de crianças a idosos das zonas metropolitanas na ou próximas da costa brasileira parece que o fogo que devora milhões de hectares da vegetação de vários biomas não acontece neste país e sim em outro continente ou outro planeta.

     Estamos em plena crise ambiental e nem o governo, o Congresso, a imprensa e os candidatos ao próximo pleito municipal estão sensibilizados com a extrema gravidade da situação. Foi preciso que a cidade de São Paulo fosse classificada em primeiro lugar entre 120 do planeta com a pior qualidade do ar durante dias seguidos para que houvesse alguma reação, mesmo assim, ninguém (ou quase), fora do círculo estreito dos ambientalistas e cientistas está denunciando as implicações do mar de chamas para o futuro próximo do país e muito menos apontando as responsabilidades.

     As queimadas e desmatamento são algo corriqueiro e crescente no Brasil desde que os militares resolveram “integrar para não a entregar” a Amazônia, desde os anos 70 do século passado. Foram 200 milhões de hectares desmatados e queimados nos últimos 40 anos, desde que a ocupação das “novas fronteiras agrícolas” se acelerou. 73 milhões destes hectares se localizam na Amazônia.

     Em momentos de maiores incêndios cientistas e ambientalistas gritam, alguns deputados discursam, governos tergiversam e a imprensa especula. A opinião pública continua ignorando as causas e consequências destes fatos assustadores e dormindo em berço esplêndido, embora a lua e as estrelas (e até o sol) fiquem apagados ou opacos por um tempo pela fumaça.

     Comecemos pelos impactos deste prolongado processo de destruição. Queimadas e desmatamento estão provocando uma mudança climática no Brasil, mais acelerada do que na maior parte do planeta. As ondas de calor estão ocorrendo em todo o mundo, devido ao aquecimento global para o qual as emissões de gases de efeito estufa e redução da captura de carbono provocadas pelo nosso desmatamento e queimadas contribuem significativamente.

     Somos o sexto maior emissor de CO2, e o nosso aporte para a destruição do planeta provém principalmente das queimadas e desmatamento. Mas o primeiro impacto deste aquecimento é aqui mesmo e mais intenso do que em outras partes do mundo.

     Enquanto no resto do planeta o aumento das temperaturas médias está batendo os fatídicos 1,5º Celsius este ano, prevê-se que já em 2025 a Amazônia vai registrar um aumento de 2,5º C. Estes números parecem coisa pouca para os leigos, mas eles significam máximas de temperatura superando os 40º C com muita frequência ao longo do ano e não apenas nos meses de verão. Para quem não vive em ambientes controlados pelo ar refrigerado isto significa mais do que um incomodo, mas uma ameaça concreta para a saúde, sobretudo para crianças, idosos e trabalhadores em espaços abertos.

     Em quase todo o país a previsão é de aumentos acima da média mundial: mais 2,5º C no Nordeste, mais 2º C no Centro-Oeste e mais 1,5º C no Sudeste. Apenas no Sul o aumento previsto (1º C) está abaixo da média mundial.

     O segundo efeito grave do processo de desmatamento e queimadas é a queda no volume das chuvas e talvez ainda mais grave, na sua grande irregularidade. Como vimos este ano, Porto Alegre foi afogada em um ano em que o resto do país vive uma seca prolongada por dois anos consecutivos, sem perspectiva de alívio na próxima estação chuvosa.

     As previsões para o ano que vem indicam reduções dos índices médios de precipitações de 20%, na Amazônia, 25%, no Nordeste, 15% no Centro-Oeste, 10% no Sudeste. No Sul as precipitações crescem 5%.

     O sistema dos “rios voadores” que irrigam o Sul, Sudeste e Centro-  Oeste com umidade produzida pela evapotranspiração da floresta amazônica está sendo desequilibrado pela destruição do bioma. As regiões que concentram 80% da nossa produção agrícola (quase totalmente dependente de água de chuva) estão sujeitas a perdas de 10 a 30% da produção, dependendo da cultura e da região. O impacto sobre a economia será enorme, tanto na balança comercial como no preço dos alimentos. A fome, problema mal resolvido no Brasil mesmo em períodos menos ambientalmente desfavoráveis, vai afetar muito mais gente do que a que padece hoje.

    O desequilíbrio climático, com menos chuvas, temperaturas mais altas e menor umidade do ar, já está provocando a redução da vazão dos nossos rios, sendo que o mais afetado é o São Francisco, com 60% de vazão reduzida nos últimos 30 anos. Os efeitos aparecem no abastecimento de várias cidades, inclusive com algumas já em racionamento e outras com a piora da qualidade da água.

     A redução na geração de energia elétrica já é elevada em 9 usinas, cinco delas no São Francisco (Sobradinho, Apolônio Sales, Paulo Afonso, Luiz Gonzaga e Xingó). Todo mundo vai sentir no bolso o custo das bandeiras vermelhas do Operador Nacional do Sistema que vai acionar as termoelétricas, aumentando a nossa contribuição para o uso de combustíveis fósseis com o consequente aumento das emissões de CO2.

     O ar irrespirável em São Paulo dá manchete de jornal nas metrópoles, mas as cidades do norte e centro-oeste já são afetadas ano a ano há muito tempo. E é bom ir se preparando para uma repetição cada vez mais frequente deste “mau tempo” daqui para frente.

     E quem são os responsáveis por este estado de coisas?

     Segundo a maioria dos jornais e comentaristas das televisões a causa mais citada é o “aquecimento global”, sem que se aprofunde quem são os responsáveis por este fenômeno. Pode-se dizer que há, na imprensa brasileira, um passo adiante na compreensão do problema pois, pelo menos, não se nega o aquecimento global. Mas para muita gente, este é um fenômeno natural, independente do fator humano. Entre evangélicos é comum uma posição resignada do tipo “é a vontade de Deus”, ou ainda “Deus nos pune por nossos pecados”. Nada mais paralisante do ponto de vista da necessidade de se fazer alguma coisa.

    No Congresso, mas também nas Assembleias Legislativas, no executivo federal, mas também nos Estaduais e nas prefeituras e Câmaras Municipais, prevalece uma paralisia e um descaso com a catástrofe que nos assola agora e nos ameaça no futuro, a não ser para pedir dinheiro federal para medidas paliativas.

     A poderosa bancada ruralista não dá um pio para discutir a crise, a não ser para pedir verbas compensatórias para as perdas do agronegócio. Pior do que isso, os ilustres parlamentares têm engatilhados 20 projetos de lei desmontando a nossa já muito esburacada e ignorada legislação ambiental. É a “boiada passando”, tal como nos tempos de Bolsonaro e seu criminoso ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales.

     Dentre as avaliações mais frequentes escutadas nas TVs, aparece o conceito do “agronegócio bom”, aquele da propaganda (“agro é tec…”). Segundo vários comentaristas, há um setor “moderno”, “sustentável” e “amigo do meio ambiente” e ele tem sido chamado a se manifestar por mais de um âncora de programas de televisão. Não se aprofunda quem seria, por oposição a este setor, o agronegócio “mau”, o predador do meio ambiente. Seria ele o responsável pelas queimadas e desmatamentos? Ninguém diz isso com todas as letras, fica subentendido na maior parte dos casos.

     Alguns números podem nos ajudar a pensar sobre este nosso agronegócio. As propriedades com mais de mil hectares somam 51.203, segundo o censo de 2017, e ocupam 167 milhões de hectares. Mas o nível de concentração de terras é ainda mais espantoso: apenas 2.450 proprietários rurais com áreas superiores a dez mil hectares ocupam 51,6 milhões de hectares! O primeiro grupo dos maiorais do agronegócio representa apenas 1% do total de produtores rurais, patronais ou familiares. O segundo representa 0,05% do total de produtores. Em termos de localização, perto de 75% destes grandes produtores do agronegócio estão no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. São as grandes lavouras de soja, milho, cana de açúcar, café, laranja, algodão. Na Amazônia e no Cerrado encontram-se os maiores criadores de gado, com perto de 65% do rebanho bovino nacional.

     O agronegócio se apresenta ultra concentrado em termos de propriedade de terras, mas esta concentração é ainda maior em termos de capital e de valor da produção. Apenas 25 mil destes superprodutores são responsáveis por 60% do valor básico da produção (VBP) agropecuária. Esta concentração de poder econômico se reflete em concentração de poder político.

     A elite econômica do agronegócio domina as entidades do setor, inclusive a Confederação Nacional da Agricultura, mais convencional, e a Associação Brasileira do Agronegócio, mais recente e dinâmica.  Este poder econômico é utilizado para financiar campanhas de publicidade de grande impacto e, sobretudo, eleger a maior bancada temática do congresso nacional: a bancada ruralista. Com Bolsonaro, o poder executivo tornou-se uma espécie de apêndice dos think thanks do lobby do agronegócio, adotando toda a agenda do setor.

     Lembremos que o agronegócio não é apenas o setor primário, composto de fazendeiros e criadores, mas inclui as indústrias de insumos (agrotóxicos, sementes, fertilizantes e maquinário) e de processamento e os serviços correlatos. Há poderosos lobbies como as associações dos criadores de gado zebu ou de nelore, ou a Aprosoja, Abiove, etc. Mas algumas grandes empresas têm papel destacado, entre elas os grandes frigoríficos, sobretudo a JBS, maior processadora de carnes do mundo. E são eles que definem as políticas para os biomas que estão queimando há meses.

     Tanto os criadores de gado como os produtores de soja e algodão, na Amazônia e no Cerrado, se beneficiam do processo de grilagem que acompanha a ocupação destes territórios. É a terra mais barata do mundo fazendo a nossa carne ser um dos produtos do agronegócio mais competitivos no mercado internacional. As terras griladas, quase todas de propriedade da União, não custam nada aos ocupantes desde longa data. Forjam-se documentos para “legalizar” as vendas das terras desmatadas e queimadas ilegalmente e, de tempos em tempos, sucessivos governos anistiam estes crimes.  Criadores de gado compram as terras e as exploram até o bagaço, vendendo os bois para o “agronegócio bom”, para engorda em áreas não desmatadas recentemente. E os frigoríficos, o setor mais poderoso do agronegócio brasileiro, compram boi barato e exportam ou vendem a carne para o mercado interno, tudo devidamente certificado. Deve ser o setor mais rentável do agronegócio aqui e em todo o mundo.

     E o que passa com os criadores de gado em outras regiões, muitos deles com tecnologia de ponta e até manejos sustentáveis do seu plantel? Sua carne é mais cara, mas de melhor qualidade e alcança melhores preços até na Argentina. Estes empresários são respeitadores do meio ambiente e capazes de se ajustar às regras novas da União Europeia com rastreamento para impedir a compra de carne oriunda de áreas desmatadas desde 2020. E por que não lutam por uma legislação nacional que obrigue esta prática? Trata-se de uma solidariedade com os agrotrogloditas da Amazônia, Cerrado e Pantanal?

     Desconfio que este setor dito “moderno” tem interesse na persistência da criação de gado nas áreas desmatadas. Colocada em prática a legislação da UE no ano que vem, e com os chineses, americanos e ingleses discutindo medidas semelhantes, vai haver um bloqueio das exportações de carne bovina brasileira, aquela que não vai conseguir a certificação. É mais da metade das nossas exportações de carne que vai ficar retida no mercado interno e os preços nacionais vão cair. Por outro lado, quem tiver carne certificada vai poder aproveitar o aumento do preço da carne no mercado internacional (derivado do bloqueio) e o nosso agronegócio pecuário “bom” vai nadar de braçada por um bom tempo. Me parece um cálculo bastante razoável para explicar o silêncio cúmplice dos setores “modernos” do agronegócio e a falta de ação por uma legislação sobre o rastreamento.

     O rastreamento da carne deveria ser uma legislação nacional aplicada com rigor e emergência para deter o desmatamento e queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal. Ocorre que o governo não quer enfrentar o agronegócio no Congresso e prefere criar mais um organismo ambiental, chamado de “Autoridade Climática”. Nem discuto a importância deste instrumento, mas até ele começar a existir e operar o caldo pode estar entornado de vez.

     No Brasil é sempre assim: frente a uma emergência cria-se uma comissão que vai discutir o que fazer, enquanto já se sabe há muito tempo que a medida capaz de conter o processo de desmatamento e queimadas é o rastreamento do gado e a certificação da carne. As ameaças de controle pelo Ibama ou ICMBio e Polícia Federal são irrisórias, mesmo se multiplicados os seus funcionários por milhares.  É muito grileiro desmatando e queimando com a proteção ou não da milícia do tráfico de drogas e que também atua no garimpo ilegal. E eles contam com a cumplicidade da justiça local, dos policiais civis e militares, de governadores e prefeitos. O estrangulamento destes processos criminosos só será eficaz com medidas que impeçam a colocação dos seus produtos no mercado. Por outro lado, os bancos públicos e privados poderiam entrar na dança, exigindo o rastreamento para financiar frigoríficos e criadores de gado. No caso dos bancos privados isto não cobra sequer uma lei específica, só uma resolução administrativa.

     Não basta para fazer discurso em visitas “preocupadas” às áreas sinistradas, como o Lula é mestre em fazer. Os cientistas dizem que mais dois ou três anos com os índices atuais de desmatamento e queimada a floresta amazônica vai colapsar. Não é um colapso localizado, este já ocorreu em todo o “arco de fogo” que vai do norte do Mato Grosso, o sul do Pará, o Tocantins, o Matopiba, Rondônia e Acre. Estamos falando de um processo de degeneração de todo o restante da floresta, que levará à transformação da grande planície úmida, cortada de rios enormes, em uma savana arbustiva e seca e, com o tempo, em um deserto.

     É preciso pensar em um outro efeito iminente deste desastre: o deslocamento da população para as cidades dos três biomas citados e que vai se estender para as grandes metrópoles do sudeste e sul. Algumas dezenas de milhões de brasileiros vão se transformar em refugiados climáticos e aumentar a miséria urbana no país.

     O Nordeste, por razões climáticas mais gerais, também se encaminha celeremente para passar de semiárido para árido, mesmo sem a intensidade dos desmatamentos tratados neste artigo. A previsão de aumento de temperatura média da ordem de 3º C na região vai implicar na perda de 30% da produtividade da agricultura, afetando principalmente a familiar. Estamos diante da forte probabilidade da retomada das crises sociais oriundas das secas, crises essas que perduraram até os anos 70. No passado, fugindo das secas, os “retirantes” a migravam para um “Sul” muito amplo, das cidades metropolitanas do Sudeste até as zonas rurais do Paraná e de São Paulo. Para onde irão os novos retirantes?

     O agronegócio brasileiro sempre foi adepto do uso indiscriminado do fogo para expandir suas lavouras e pastos. Hoje o desastre é proporcional ao poderio adquirido por este setor. Ele sabe muito bem que no rastro deste avanço ficam dezenas de milhões de hectares (entre 80 e 100) de “áreas degradadas”, mas enquanto houver terras a grilar e florestas a queimar o processo vão continuar.

     E depois? Ora, depois eles vão embarcar para Miami e gozar os dólares amealhados. Mal sabem que o aumento dos oceanos provocado pelo aquecimento global que eles ajudam a ampliar vai engolir o paraíso dos ricos brasileiros.

 

OUTRASPALAVRAS

 

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Pensamento: Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.

 

Confúcio

 

 


 

PARA ONDE VAI O DINHEIRO DO AGRONEGÓCIO?

 

 

     Agro movimenta R$ 2,7 trilhões em 2024, mas bancos ficam com a maior parte: veja por que o setor está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira

Escrito por

Carla Teles

Publicado em

03/12/2025 às 23:41

Agronegócio

     Agro movimenta R$ 2,7 trilhões em 2024, mas bancos ficam com a maior parte: veja por que o setor está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira.

     Agro e agronegócio brasileiro criam infraestrutura financeira com crédito rural e fintechs do agro para reduzir a força dos bancos sobre o setor.

     Enquanto o agro sustenta quase um quarto do PIB brasileiro, boa parte do dinheiro não fica no campo e é capturada pelos bancos e intermediários financeiros

     O agro brasileiro atingiu em 2024 a marca de R$ 2,7 trilhões de PIB, algo próximo de um quarto de toda a riqueza produzida no país. Produtores, cooperativas, tradings, indústrias e distribuidores formam uma engrenagem que emprega milhões de pessoas, responde por quase metade das exportações e sustenta a balança comercial. Só que, por trás dessa potência, existe um ponto que quase ninguém fala: a maior parte do dinheiro que circula no agro não para dentro da porteira, para na mão dos bancos.

     Por meio de crédito rural, adiantamentos, seguros, exportações, operações de câmbio e meios de pagamento, o sistema financeiro se posiciona em cada elo da cadeia.

     Os bancos controlam o crédito, intermediam as transações e capturam uma fatia do lucro em cada etapa, muitas vezes sem plantar, colher ou armazenar um único grão. A boa notícia é que esse jogo começou a virar.

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     O campo está aprendendo a transformar crédito em negócio, pagamento em produto e fluxo financeiro em lucro próprio. Em outras palavras, o agro está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira.

     O tamanho do agro e o tamanho do buraco financeiro

     Para entender a dimensão dessa virada, é preciso olhar primeiro para a escala do agro. A cada quatro reais gerados no Brasil, praticamente um vem diretamente ou indiretamente do campo. São mais de 28 milhões de pessoas envolvidas entre produção, indústria de alimentos e distribuição.

     O setor responde por cerca de 49% das exportações brasileiras, com superávit comercial de dezenas de bilhões de dólares.

     Mesmo assim, o agro ainda depende fortemente de capital de terceiros para funcionar. O crédito rural segue como pilar central. Na safra 2024/2025, a aplicação de crédito rural já somou cerca de R$ 330 bilhões, com a maior parte dos recursos controlada por bancos públicos e privados.

     Mais de 70% do financiamento rural no país ainda vem dessas instituições, o que significa que o grosso do fluxo financeiro do setor passa fora do campo e voltam na forma de juros, tarifas e spreads.

     Onde o dinheiro do agro realmente para

     Por trás da imagem de produtividade e superávit, existe uma dinâmica previsível. O produtor rural:

Toma crédito para custear o plantio

Compra insumos muitas vezes já financiados

Vende a produção para uma trading, muitas vezes com adiantamento.

Recebe o pagamento em etapas

Quita os financiamentos, paga juros e recomeça o ciclo

     Em cada passo dessa jornada, há um intermediário financeiro capturando parte do valor que o agro gera. O banco financia o custeio da safra. A trading antecipa parte da produção. A cooperativa intermedia pagamentos. O banco opera o câmbio das exportações. A seguradora cobre risco climático e operacional, sempre cobrando prêmio.

     O resultado é aquilo que muitos economistas já enxergam como um gap financeiro do agro. O campo gera valor, mas não captura na mesma proporção. O dinheiro nasce no agro, mas o lucro consolidado tende a parar na cidade, nos balanços de quem controla crédito, informação e meios de pagamento.

     As cinco grandes dores financeiras do agro hoje

     Apesar da força produtiva, o agro enfrenta um conjunto de problemas que limitam sua eficiência financeira e pressionam margens, indo muito além de clima e safra. Entre as principais dores estão:

     Fragmentação da cadeia produtiva

     O agro brasileiro é formado por milhões de produtores, revendas, cooperativas, tradings, processadores e exportadores. Cada elo tem o próprio modelo de operação, necessidades financeiras e nível de digitalização.

     O resultado é um ecossistema desconectado, em que o dinheiro e a informação demoram a circular, gerando ineficiência, custo e perda de poder de barganha para o produtor.

     Dependência excessiva de crédito de terceiros

     Boa parte dos produtores depende de bancos, cooperativas de crédito ou tradings para financiar insumos e operações. Quando o crédito encarece, os juros sobem ou há atraso no Plano Safra, o impacto vai direto na base da produção.

     O crédito rural continua sendo essencial, mas ainda é burocrático, concentrado e de difícil acesso para quem não tem garantias robustas ou histórico bancário consolidado.

 

Play Video:

 

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     Baixa integração e gestão de dados

     Em muitas regiões, o agro ainda opera com baixo nível de digitalização. Dados sobre safra, clima, estoque, crédito e mercado seguem dispersos, sem conexão entre sistemas.

     Isso limita o planejamento, encarece a gestão de risco e reduz o poder de negociação do produtor, já que quem tem as melhores informações sobre crédito, preços e transações são os intermediários, não quem produz.

     Risco operacional crescente e margens apertadas

     Custos de fertilizantes, defensivos, logística e energia sobem, enquanto volatilidade cambial e de commodities aperta margens.

     O produtor lida com incertezas de safra e mercado, mas seus compromissos financeiros são fixos, criando uma assimetria entre o risco da produção e o custo do capital.

     Custo logístico e falta de liquidez

     Infraestrutura deficiente de transporte e escoamento eleva prazos, estoque e aperta o fluxo de caixa. Em um setor em que o intervalo entre plantar e receber pode passar de um ano, qualquer atraso no crédito ou na liquidação das vendas compromete o reinvestimento na safra seguinte.

     Somadas, essas cinco dores mostram algo evidente: o agro é gigante em produção, mas ainda é carente de estrutura financeira proprietária. E é justamente aqui que nasce uma das maiores oportunidades da história do setor: transformar essas dores em negócios financeiros dentro da própria cadeia.

     Por que o agro tem tudo para ser uma infraestrutura financeira

     Se você olhar com lupa, vai perceber que o agro já tem todos os ingredientes que um banco precisa para operar: Fluxo financeiro previsível ao longo do ano

Base de clientes recorrentes

Alto volume de transações

Histórico de relacionamento de longo prazo

Garantias reais, como terras, máquinas, armazéns e contratos

     O que faltava era tecnologia, regulação adequada e visão de dono sobre o dinheiro que circula dentro do campo. Nos últimos anos, isso começou a mudar por três motivos principais:

     Primeiro, a digitalização acelerada do agro. Fintechs especializadas em crédito e serviços financeiros para o campo, como Trave, Set e Terra Magna, já mostram que é possível operar crédito, seguros e pagamentos de forma totalmente digital, usando dados de safra, clima e produtividade para reduzir custo e risco.

     Segundo, a mudança regulatória. O Banco Central vem estimulando modelos como SCDs e instituições de pagamento, permitindo que empresas do agro ofereçam crédito com recursos próprios ou criem soluções financeiras personalizadas para seus produtores e parceiros.

     O que antes era monopólio dos bancos hoje está aberto para quem entende o dia a dia da fazenda, da cooperativa e da revenda.

     Terceiro, o ativo mais poderoso de todos: dados. O agro é um dos setores que mais geram informações no país. Produção, clima, histórico de pagamento, garantias, comportamento de compra, tudo isso pode ser convertido em inteligência financeira.

     Quando esses dados são usados para avaliar risco, precificar crédito e antecipar inadimplência, o campo passa a controlar o próprio fluxo financeiro e a capturar valor em cima de operações que ele mesmo já movimenta.

     Como o agro já está virando sua própria infraestrutura financeira

     Essa transformação não é teoria, o agro já começou a fintexar o campo na prática. Nos últimos anos, surgiram empresas e estruturas que mostram como o setor está criando sua própria infraestrutura financeira:

     A Set, por exemplo, digitalizou o processo de barter, aquele modelo em que o produtor troca parte da safra por insumos ou crédito. O que antes dependia de papel, cartório e meses de análise bancária hoje é feito digitalmente, do contrato à liquidação. Isso reduz custo, aumenta segurança e abre espaço para financiamento direto, sem depender totalmente dos bancos.

     A Trave usa inteligência artificial para analisar risco de crédito de produtores e investidores, conectando quem precisa de capital com quem quer financiar o agro, sem passar necessariamente por bancos tradicionais. É o próprio setor aprendendo a usar dados do campo para criar soluções financeiras sob medida.

     Cooperativas financeiras como Ccred e Ccob ampliaram sua presença digital e passaram a oferecer conta, crédito, seguros e meios de pagamento integrados ao ecossistema agro, entendendo que não basta financiar a produção, é preciso dominar o fluxo financeiro da cadeia.

     Revendas e trades também se movimentam. Empresas que antes só vendiam ou compravam insumos começam a criar braços financeiros para antecipação de recebíveis, financiamento de clientes e gestão de pagamentos. A Agrofy, por exemplo, estruturou a Agrofy Pay, uma solução de pagamento integrada ao marketplace agro, permitindo que o produtor compre insumos a crédito e pague de forma totalmente digital.

     Quando somamos tudo isso, enxergamos um novo cenário: um agro que não depende apenas de um banco para girar, mas que começa a construir suas próprias estruturas financeiras dentro do próprio setor.

     Passo a passo para o agro capturar o próprio fluxo de dinheiro

     Se o agro quer de fato virar sua própria infraestrutura financeira, o caminho passa por alguns passos práticos:

     Mapear o fluxo financeiro completo

     Entender por onde o dinheiro entra, por onde sai e em quais pontos terceiros capturam margem. Cada taxa de financiamento, cada comissão em pagamento ou seguro mostra um espaço potencial de captura de valor dentro da cadeia.

     Digitalizar relacionamento e transações

     Sem digitalização, não há inteligência financeira nem escala. Plataformas, aplicativos e sistemas integrados precisam centralizar crédito, pagamentos, recebimentos e contratos. É isso que permite transformar relacionamento em produto financeiro.

     Escolher o modelo regulatório adequado

     O Banco Central oferece caminhos como SCDs, sociedades de empréstimo entre pessoas e instituições de pagamento.   Além disso, modelos de parceria com instituições já licenciadas permitem começar rápido, testando soluções sem precisar montar um banco do zero.

     Transformar dados em crédito e produtos financeiros

     Usar dados de produtividade, histórico de pagamento, clima e logística para criar produtos como crédito personalizado, seguros inteligentes e antecipação de recebíveis com risco calibrado. Finanças passam a ser uma extensão natural da operação do agro, não um serviço estranho vindo de fora.

     Operar em parceria, não no improviso

    Fintexar o agro não é assumir risco desnecessário, é estruturar modelos sustentáveis, regulados e tecnológicos.  Cooperativas, indústrias e revendas que têm dado certo nesse movimento trabalham em parceria com instituições licenciadas, combinando conhecimento do campo com estrutura financeira segura.

     No fim das contas, fintexar o agro não é virar banco no papel, é virar dono do próprio fluxo financeiro. É transformar cada transação, cada boleto, cada linha de crédito em margem que permanece no campo, e não apenas nos balanços dos intermediários.

     O agro como força de inovação financeira

     O agro sempre foi sinônimo de força, produtividade e resiliência. Agora, começa a ser também sinônimo de inovação financeira, usando dados, tecnologia e regulação a seu favor para capturar valor sobre o mesmo dinheiro que já movimenta.

     Essa transformação já está acontecendo com produtores, cooperativas, revendas e indústrias que decidiram olhar para o fluxo financeiro com a mesma atenção que dedicam à safra. Quanto mais o agro entender de dinheiro, menos refém ele será dos bancos e mais protagonista se tornará na própria história.

 

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Pensamento: Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros.

 

Confúcio

 

 

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